Cantadeiro em obras

QUADRILHA-NÃO DÊEM CABO DO MUNDO
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Sonntag, Juli 05, 2009

Um velho amor e um telemóvel

Ela pareceu entusiasmadíssima por me ver e eu, confesso que o fiquei. Tiveramos uma paixão aquando dos meus dezoito anos; depois, quis o destino que fosse cada qual para o seu lado. É certo que o facto de ela viver na Alemanha e eu em Portugal contribuiu inequivocamente para o nosso afastamento; a correspondência trocada não bastou para que o contacto se mantivesse.
A minha memória, a qual eu alimento diariamente com recordações, contudo, quis um dia trazê-la de volta. E eu, que entretanto viera para a Alemanha, não hesitei em encetar a busca daquela grande paixão.
Quinze anos eram passados... Quinze anos. Mas a minha memória era clara, límpida. A morada dela estava presente como se eu tivesse nas mãos uma carta dela.
Telefonei às informações e pedi o número da família Mueller, na rua tal, número tal, em sítio tal. O número foi-me dado. Disquei-o. Foi uma voz de mulher que falou.
-Alô.
-Boa tarde, aqui é um velho amigo da Bettina, ela por acaso está?
-Um amigo? -A voz soou desconfiada.
Imaginei que fosse pelo meu sotaque ou pelo meu mau alemão.
-Perdoe o meu alemão... eu sou português... conheci a Bettina há uns anos, quando ela esteve em Portugal.
-Ah... eu lembro-me. Ela ainda tem aqui uma foto de vocês os dois. Mas já não mora aqui. Mora em Berlim. Quer o número?
-Agradecia.
O destino parecia estar com vontade de me dar alegrias pois, assim que telefonei a Bettina esta disse-me que tinha que ir a Altona e nos podíamos encontrar. Assim foi.
Três dias depois encontramo-nos num café em Hamburgo.
No entanto, ainda não tínhamos trocado duas frases e já ela atendia o telemóvel. Aguardei.
-Há quantos anos?... -Perguntou ela a guardar o aparelho.
-Catorze... quase quinze. -Eu sentia-me perturbado, nervoso; pedi uma cerveja e acendi um cigarro.
Ela pediu um café e tornou a pegar no telemóvel após um trinar deste.
-Desculpa. É a minha amiga.
Eu desculpei. Recostei-me na cadeira a saborear o cigarro e à espera da cerveja. Esta chegou.
Bettina desta vez já não pôs o aparelho na carteira, deixou-o sobre a mesa.
-E o que é que fazes na Alemanha. -Ela olhou-me de tal modo que fiquei mais nervoso ainda.
Bebi um golo de cerveja a querer ganhar tempo, mas o líquido pareceu empastelar-me as cordas vocais.
Um novo trinado.
-Desculpa, uma outra amiga.
Olhei o céu pela janela. Azul, sem nuvens...
Bettina desligou mas manteve o telemóvel na mão.
-Dizias?...
Soltei uma gargalhada que soou estranha, sem humor.
-Não dizia nada...
-Ah. -Ela pôs açúcar no café. -E que fazes aqui?
-Eu... -interrompi-me para que ela voltasse a atender o telemóvel.
-Desculpa. -Rodou na cadeira e voltou-me as costas.
Senti-me incomodado, mas desta vez um incómodo diferente; era como se eu estivesse a mais. Acendi na pirisca um novo cigarro. Sorvi um longo trago. Olhei de novo o céu e pensei:
"Um dia espectacular para ir até ao parque."
-Pois, então tu dizias...
-Banalidades... -sorri. -Eu dizia...
Novo trinado. Ela levantou-se e desviou-se para um canto a falar baixo.
Eu acabei o resto da cerveja, levantei-me tambem, paguei e fui até ao parque.