Cantadeiro em obras

QUADRILHA-NÃO DÊEM CABO DO MUNDO

Donnerstag, Juli 23, 2009

Suor vergonhoso

As ondas que me vêm molhar o corpo
São espelhos de inactividade
Que por acaso sabem a sal.
Enjoa-me o suor que o tempo abafa
Nos meus sovacos
Onde o desodorizante matinal morreu,
No meio-dia da igreja de S. José.
Espreito ainda coragem
Num fino super mais barato que a sem chumbo
E prolongo o tempo numas linhas.
Há manchetes preocupantes,
Alheias ao suor que em mim tresanda,
Desprezadoras da vergonha
Que me espera nos gumes mirantes
De quem, como eu, tem que andar de autocarro.

Mais um fino sem coragem
Ao longo da vitrine do LD,
Simultâneo ao andar ligeiro
Da moçoila serrana
Que faz serviço em casa de qualquer título.
Reconheço o cabelo penedio
E o maciço dos seios virgens;
Tão jovem...

Há muito que já não há vinte paus
Para se deixarem na mesa;
O dinheiro é estrangeiro
Como a língua que debito,
Tudo muito Europeu e nada meu.

Meu, o suor que me envergonha,
Que cresce em cada passo,
Que trespassa a camisa,
Que vinca em mim um olhar curvo.

Quando, enfim, no autocarro
O corpo se recompõe do arranque
E a vergonha me intoxica,
Vejo a moçoila serrana:
Tão jovem na distância que me cerca;
Tão verdadeira como os sonhos juvenis,
Esses que estão algures
Nos cadernos do meu tempo.

Só quando abandono as memórias,
E o autocarro também,
Noto que ninguem me cheirou.

Eram todos trabalhadores.

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