“És tu, Henrique, e muitos liberalóides ratitos de biblioteca quem, muitas vezes, detém a realidade à porta da "teoria". “
Extraído de Portugal dos Pequeninos
de João Gonçalves
Eu vou aqui opinar a minha ideia de opinião, começando por dizer, mais ou menos por onde passei.
Primeiro, nasci numa casa pobre mas não miserável. A minha mãe fervorosamente protestante e o meu pai patologicamente comunista. Frequentei a Escola Primária do Tovim, sem problemas, passei pelo Ciclo Preparatório Eugénio de Castro, Escola Secundária Avelar Brotero e Liceu Nacional D. Maria. Fiz cursos de formação de Formadores do FAOJ, estive na Escola de Teatro em Évora e trabalhei na construção civil em várias áreas até me consolidar como armador de ferro. Fiz teatro como actor e encenador a nível amador e li muitos livros de autores portugueses.
Arranquei para a Alemanha, mais por curiosidade do que por outra coisa e acabei por ficar, devido a uma Associação portuguesa necessitar de um encenador e me aceitar como tal.
Aprendi a língua, que nem falava; trabalhei desde ardina até auxiliar de enfermagem (neurocirurgia-fascinante), mas nunca obtive um curso superior. Visitei algumas palestras na Universidade de Hamburgo e pensava em me matricular lá para cursar em psicologia, o que não passou disso, pois acabei por sair de Hamburgo e ir para Freiburg, tambem cidade universitária, mas a idade e a vontade cresceram em direcções opostas.
Acompanhei, dum modo ou outro, as evoluções político-sociais quer em Portugal quer na Alemanha e no resto do mundo.
Neste deambular de quase meio século, mudei frequentemente de opinião; nunca porque li, vi ou ouvi, mas sim porque meditei. O ler, ver e ouvir foram apenas a ignição, depois disso é necessário deixar pegar o motor, acelerá-lo, travá-lo e dirigi-lo para a meta que se tem ou que se considera viável.
A minha opinião não vem, por isso, nos livros, se lá viesse não era minha, mas do autor. Eu tenho-me apercebido, durante estes anos todos, que todas as pessoas quando querem reforçar a sua opinião dizem “como dizia [o outro]”; com isso procuram mostrar que não são os únicos a pensarem do seu modo.
Os ratos de biblioteca, porém, procuram sempre reforçar o que dizem com citações de outros indivíduos, sobretudo quando se apercebem que o seu interlocutor poderá estar em desvantagem em relação ao acesso bibliotecário, quer por falta de interesse quer por falta de meios; eles exigem sempre do seu oponente provas. Onde é que é que eu posso ir buscar provas para a minha opinião se nunca escrevi um livro para a defender, nunca fiz um filme nem coisa parecida? Terei que ir buscar o que outro disse? E se o que o outro disse está correcto mas o contexto onde foi inserido é falso, quer dizer, não compatível com a minha opinião? Um problema, não é verdade?.
Diz-se frequentemente: vai chover; e quem o diz não é nenhum meteorologista ou coisa que o valha. Ninguem, ou raramente alguem, pergunta: porque é que dizes isso?
Se eu sou da opinião que os americanos nunca aterraram na lua, não é porque alguem escreveu que assim é; eu formei a minha opinião a partir de afirmações, tais como: “O que é desconhecido do grande público é que a alunagem não correu tão bem como se diz. O módulo “Águia” desviara-se da rota prevista e dirigia-se para uma zona de terreno irregular; Armstrong ligou o “manual” e evitou, assim, o pior. De acrescentar que esta manobra teve também o pormenor do combustível: este chegaria apenas para mais vinte segundos, quando Armstrong alunou.” Esta citação foi traduzida por mim, vinda do canal televisivo alemão ZDF. Ela gerou em mim a pergunta: Onde é que foram, então, buscar o combustível para poderem regressar?...
Os ratos de biblioteca, uma espécie homossáuria bastante proliferante, pergunta frequentemente: onde é que leste isso? E não aceitam nunca como resposta: não li em nenhum lado.
Eu, na minha viagem como pai, apercebi-me que o meu filho frequentemente tinha (ainda tem) teorias fascinantes muito antes de aprender a ler, e o mais interessante é que ele possuía, paralelamente, argumentos de defesa. Não foram (ou são) raras as vezes em que tenho que lhe dar um livro para lhe mostrar o erro da sua teoria... reforço, porém, sempre, que um livro não é a bitola do universo; um livro tanto pode estar certo como errado. É na sua cabeça que ele tem que (re)formular a sua opinião.
Poder-se-á perguntar porque é que lhe dou um livro... eu não estou apto a discutir todos os temas com os quais o meu filho me confronta, daí recorro ao auxílio de livros, e naqueles que julgo possuir uma opinião fiável, penso ser útil mostrar-lhe quer opiniões contrárias quer favoráveis; um livro é sempre um bom auxiliar.
A opinião de cada um, contudo, permite escrever muitos livros, mas não pode nunca ser um livro só.
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Absolutamente de acordo. Devemos pensar pela nossa cabeça.
AntwortenLöschenMas 99% da informação chega-nos de outros, seja pela escrita, pela imagem, pelo filme ou pelo discurso. Donde, resta-nos estudar e comparar todos os argumentos. Haverá concerteza muitos que se contradizem. Talvez seja por aí que podemos avançar no conhecimento.
Acabas de confirmar a afirmação de João Gonçalves, mas já não estranho.
AntwortenLöschene este é uma récita fascinante.
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