Cantadeiro em obras

QUADRILHA-NÃO DÊEM CABO DO MUNDO

Samstag, Juni 27, 2009

Genesis I

Ao príncipio era eu e a cerveja e um impulso sexual tão inato como o respirar. Porém, eu não era cirurgião de arrancar costelas e muito menos alquimista de ossos para fazer delas uma Maria. Daí ir para o tasco da esquina e sonhar com as coxas da empregada roliça. Disso me veio o verbo, ou a verborreia. Chamei-lhe poesia. Este foi o segundo dia.
Este foi o segundo dia em que entrei no tasco consciente de que o fazia incentivado mais pela cachopa do que pela cerveja.
E vós que vos julgais melhores
Pois não sofreis de humanismo,
Dizeis serem estúpidas minhas dores
E que as físicas são bem piores...
Eu olho-vos com o meu cinismo.

Sofro da alma com fervor!
O meu sofrimento eu amo!
Pois sendo ele por amor
Quase que deixa de ser dor
E é prova que sou humano.

E mais um copo. E mais um verso. E mais uma mirada ao bambolear redondo da empregada. E um suspiro.
Enquanto lá fora erguem igrejas para adorar um deus já velho, eu cá dentro idolatro-me a mim próprio e nem preciso de igrejas.
Sabe-me bem pressentir a intolerância dos crentes... dos cristãos, dos muslimes. hinduístas, budistas e até dos cientólogos. E na minha omnipotência limitada à carcaça que me reveste o espírito eu vou para além do tempo; atravesso a dimensão do estar para desexistir, deixar de ser o que quer que eu sou. Com isso complemento a minha capacidade divina. Passo a ser um todo por todo o lado. Chego mesmo a estar entre as pernas da empregada e ela irradiar aleluias. Este dom metafísico só se domina após nos libertarmos dos preconceitos morais -religiosos não possuo. Quando atingimos este estado póstumo à realidade tornamo-nos deuses. Quem não o acredita é porque está contaminado com um vírus litúrgico iconoclástico supérfluo e corre o risco de suicídio psicológico. Ou, por outro lado, talvez não acredite por falta de cerveja. É beber uns copos que isso passa.

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